texto:  Eli Antonelli


Ao se pensar no escritor francês Gustave Flaubert a primeira obra que vem a mente de muitas pessoas é “Madame Bovary”. Obra que levou o escritor ao júri, pois foi considerada, num primeiro momento, imoral e contrária as normas morais e religiosas aos padrões da época. Em 1856, enfim, o processo foi arquivado e o adultério de Emma Bovary, legitimado dentro de uma sociedade provinciana em busca de uma vida melhor, foi liberado para ser imaginado e analisado por milhares de leitores ao longo dos séculos.

Flaubert escreveu outras obras de destaque como “Educação Sentimental” e “Salammbô”. A maioria suas obras eram baseadas em suas paixões intensas e seus amores platônicos. Porém, foi em “Um coração singelo” que fica mais claro a capacidade de Flaubert de transformar palavras em imagens. Felicité, a protagonista é diferente de Emma Bovary que se perpetuou como uma personagem marcante, uma mulher a frente do seu tempo que quebrou a ordem estabelecida para o seu destino.

Felicité é uma criada que vive nas províncias de Pont-I’Évêque na França  nos primeiros anos da década de 1800. Sua história de vida se confunde com uma santa, tamanha é sua dedicação, primeiramente a um namorado, ao seu trabalho, aos filhos a patroa, ao sobrinho e por fim a um papagaio.

 A edição da editora Rocco tem apenas 72 páginas, mas com palavras selecionadas, como só Flaubert sabia fazer, é possível passar pela vida de Felicitá em seus mínimos detalhes. A obra é um exemplo de um bom perfil tamanho o detalhamento da vida singela da personagem.

 No decorrer da história o leitor aguarda algum acontecimento bombástico que trará toda uma ruptura dentro da narrativa. Mas, este acontecimento não vem, ao final da obra o leitor tem a sensação que está numa janela, acompanhando tranquilamente o desenrolar de uma vida.


Flaubert tinha uma capacidade de trabalhar as palavras de modo que as imagens não eram necessárias. Em 2006 a editora Scipione lançou uma coleção curiosa, por meio de ilustrações e textos curtos as 5 obras buscavam projetar o leitor fazendo você sentir, vivenciar e entender a vida em épocas e em países diferentes. Em “como seria sua vida na idade média?”, por exemplo,  o leitor se vê diante de informações detalhadas como que roupas você usaria na corte do rei, ou como você aprenderia a ler a escrever ao invés de aprender um ofício. Para imaginar a vida de Felicité, seu tempo, seu mundo, séculos depois da Idade Média, não é necessário nenhuma ilustração, pois Flaubert tinha a capacidade de desenhar as imagens com suas palavras. Ítalo Calvino em “Por que ler os clássicos” afirma que o autor fazia muito bem esta relação palavra e imagem, para ele em “Um coração singelo” é possível ver os acontecimentos pelos olhos de Felicité.

Madame Bovary e Coração Singelo vão para galeria dos clássicos certamente, por serem obras atemporais. A articulista Aline Pereira afirma que essa classificação se dá à obra, quando mesmo originárias de séculos passados ainda são capazes de transmitir uma mensagem que condiz com a realidade atual. No caso de Madame Bovary podemos afirmar que o que faz dela uma obra clássica é a capacidade de provocar este desconforto nos leitores, com temas polêmicos para ser serem vasculhados ou pelo texto ser  capaz de fazer o leitor olhar para seu próprio umbigo. E em “Um coração Singelo” a resposta de sua relevância está nas palavras do prefácio da obra da edição de 1987, em que Fernando Sabino destaca que esta obra é a descrição perfeita do que de mais puro, inocente e delicado pode existir como sentimento na alma humana.