Rudimar Birgman / (www.rudimarbirgman.com.br) * texto original Cartilha O FANTASMA DO ASSÉDIO MORAL - SINDIFISC-PR (Solicite palestras com nossos especialistas imprensaeliantonellli@globo.com)
Artigos relacionados a assédio moral e suas características, causas e efeitos, têm ocupado cada vez mais espaço em debates e pesquisas conduzidas por profissionais das áreas de ciências humanas. Na internet são encontradas centenas de milhares de registros sobre o tema. No mundo corporativo contemporâneo, cada vez mais se percebe que a busca pelos resultados, pelo desenvolvimento da carreira e pelo sucesso, quase que a qualquer custo, tem sido um fator decisivo para que muitas situações que envolvem assédio moral venham à tona expondo situações até há pouco tempo, impensáveis.

O que está acontecendo com as pessoas, com o ser humano e com as relações humanas? Efetivamente estamos em meio a uma situação de crise aonde as relações humanas são negligenciadas e muitas vezes desprezadas. O desprezo pelo ser humano, o despreparo e a ausência de inteligência são fatores que combinados levam pessoas a mal tratar umas as outras. E é um fenômeno que infelizmente permeia a sociedade, desde os mais pobres aos mais ricos indistintamente: As pessoas ligam muito pouco para as outras pessoas. Observando uma simples fila num ponto de ônibus em horário de pico se consegue compreender o descaso de umas com as outras. Mais triste do que isso é um fato comum que se observa numa praça onde muitas pessoas passeiam com seus cachorros de estimação bem alimentados, limpos e vacinados enquanto que crianças famintas, disputando o espaço e atenção, poucos metros adiante, imploram por um prato de comida.

Cenas como estas precisam e devem ser analisadas sob a ótica de que o homem está tendo pouco valor para o próprio homem. No ambiente corporativo acontece a mesma coisa. Muitos dos profissionais que conversamos sobre o assunto, têm a sensação e a nítida percepção de que estão na empresa como cenário para verdadeiros ditadores e egoístas. A cena a seguir repete-se na vida profissional de um executivo que conversamos.

Cedo da manhã o despertador toca. É preciso levantar da cama, fazer a higiene pessoal, vestir-se, tomar o café da manhã, levar os filhos para a escola e fazer o rotineiro trajeto para o trabalho. Durante o percurso, repassar mentalmente as atividades que terá no decorrer do dia: Entrevistar um candidato a gerente; anunciar a promoção de um subordinado que apresenta bom desempenho; concluir um relatório para a matriz; preparar uma apresentação para a alta administração; reunir-se com fornecedores, credores ou clientes por motivo relevante e inadiável; programar uma viagem a uma filial; convocar os subordinados diretos para uma reunião emergencial, entre tantas outras atividades. No entanto nenhum dos compromissos o deixa mais triste e deprimido, com a sensação de que está sendo violentado em sua dignidade pessoal e profissional, do que a reunião que realiza semanalmente com seu superior imediato. Sua percepção se justifica plenamente. As reuniões que o chefe promove são sessões de tortura psicológica e assédio moral que pouco a pouco minam a sua autoestima enquanto profissional e enquanto pessoa; o fazem duvidar da própria competência pessoal; o deixa confuso e às vezes ansioso, sem saber como se conduzir e o que fazer; e, por último, o conduz a um verdadeiro vazio existencial. Essas reuniões são extremamente estressantes e não é por acaso que a empresa aonde ele trabalha tem um grupo de executivos doentes, com depressão, muitos inclusive dependentes de drogas e que constantemente estão no psicanalista. O superior imediato não é respeitado pela sua autoridade, mas pelo seu poder coercitivo. Ele passa a ter o poder de vida e de morte sobre a carreira do executivo e a partir disso, o trabalho perde a razão de ser e o sentido da vida de existir.
Além de tentar compreender o que está acontecendo com as pessoas, uma pergunta se apresenta: Qual o impacto que o assédio moral pode provocar num profissional como tantos, que passam por uma situação destas? 
Qual o impacto e consequências sobre profissionais que planejam desenvolver-se na carreira? Responder esta pergunta é ainda mais complexo do que responder a primeira e tenho refletido muito sobre o tema, adotando uma linha de ações que tipicamente tem funcionado bem em muitos casos. O importante é planejar. Preparar-se adequadamente para interromper o ciclo vicioso implica em dar vários passos para realizar um movimento de carreira da forma mais segura possível. A primeira atitude é buscar apoio em alguém da sua confiança, que desempenhará o papel de conselheiro. Alguém que seja até mais maduro e preparado para ouvi-lo e que dará opiniões sem emoção. Um profissional da área de coaching ajuda bastante em função da metodologia existente nestes trabalhos. A segunda ação é avaliar criteriosamente o impacto e o poder do gerente sobre a sua carreira. Esta é uma pergunta que não se obtém a resposta facilmente. 

É preciso desenvolver a percepção (que é muito mais do que feeling). Em terceiro lugar, é preciso procurar oportunidades e ameaças que nos estimule ou impeça de pedir o desligamento da empresa, rompendo com o assédio moral. E para finalizar, um conselho sobre uma ação que adotei numa situação semelhante que vivenciei. Nada de demandar a empresa depois de sair, jamais. Afinal, se convivi com esta situação, um dos responsáveis pela continuidade dela fui eu. Nos tempos modernos (o de hoje, não o do filme) ninguém obriga um executivo a fazer o que não quer, a realizar o que não deseja, a cumprir o que não é ético. Quem fez, o fez porque aceitou fazer.
E para concluir, jamais, em hipótese alguma, deve-se confundir a vida familiar com o trabalho. Afinal a família é o único alicerce que nos apoia nos momentos de crise e de dor. É preciso preservá-la dos chefes “doentes” que insistem em estar em muitas empresas, inclusive as ótimas.