Eli Antonelli/Artigo
Nos últimos anos é cada vez mais comum profissionais das mais diversas áreas trocarem a carreira sólida em grandes corporações pelo passaporte da aventura de seu próprio empreendimento.

Uma série de políticas públicas vem sendo aplicadas pelo governo para que os profissionais possam administrar seu próprio negócio e gerir sua profissão de modo a crescer, e por muitas vezes, gerar empregos para mais e mais pessoas. Porém, é preciso ficar atento para não se perder no sonho de ser seu próprio chefe e ao mesmo tempo seu próprio funcionário.
Ana Cláudia de Souza formou-se em arquitetura em 2005. Durante muitos anos trabalhou em escritórios da área como funcionária administrativa e logo depois, como estagiária. Ana sempre desejou abrir sua própria empresa, mesmo com as condições mínimas no início. Aos 24 anos chamava atenção nas empresas pelas quais passou pelo seu esforço e grande interesse em aprender.  
Era extremamente apaixonada pela arquitetura. Ficava sempre muito mais que seu horário diário e aos finais de semana, a arquitetura era o seu tema de pesquisa nas muitas  horas que passava na internet.
Quando sobrava um dinheiro ela não perdia tempo, corria para descobrir os principais eventos de arquitetura e era este seu passatempo preferido, participar de congressos e simpósios do tema.
Nada de errado em amar sua profissão de forma extrema. Bem, pelo contrário, muitas vezes, este é o ponto que diferencia um grande profissional de renome a um profissional que pena para conseguir oportunidade no mercado.
Mas, a paixão pela profissão precisa ter doses certas de controle para não gerar a síndrome da ansiedade. E o que ainda é pior  quando o profissional não consegue gerir sua função com eficácia.
Ana abriu o escritório assim que se formou. Perfeito! Ela era muito talentosa e cheia de informações inovadoras na sua área. Não demorou muito para atrair muitos clientes. Mas, a paixão de jovem pela arquitetura era tão extrema que  não observou que um profissional que se aventura a ser seu próprio chefe, muitas vezes, acumula funções. Sim, ela já não era só arquiteta naquele primeiro momento. Pois não pudera contratar outros funcionários para dar o escritório. Ana era a gerente do financeiro, a gerente do comercial, a gerente de Rh, a assistente administrativo e por fim a arquiteta. Todas essas funções são realizadas pelos profissionais liberais que no início de suas atividades não dispõem de dinheiro e nem de parcerias concretas para dividir as funções.

Era Ana que ia até os clientes apresentar as propostas para o trabalho e era ela que sentava na mesa de reuniões para negociar os preços e prazos. E era ela também, quem controlava a entrada de dinheiro e realizava o pagamento das despesas do escritório.  

Ana era muito talentosa e desta forma começou a atrair cada vez mais clientes com propostas incríveis de trabalho. Porém, muitas vezes, as propostas não eram tão vantajosas em termos financeiros. Muitos contratantes não conseguiam observar o talento que a jovem arquiteta tinha e o que ela poderia fazer por eles.

Os contratantes olhavam para Ana e viam uma recém formada. Profissional a qual eles não tinham obrigação nenhuma de remunerar com valores semelhantes a outros profissionais que já estavam há muito tempo no mercado. Injusto ou não, Ana jamais discutiu essas questões, afinal, ela era extremamente apaixonada pela arquitetura. E não conseguia absorver esse tipo de questão, só interessava a relevância dos projetos e seus desafios. Principalmente os desafios.
Não demorou para ela receber também, muitas propostas de projetos que não tinham nenhum recursos, mas que havia muitas possibilidades de crescer junto com os contratantes. Ah, ali Ana, a apaixonada, se realizou. Projetos que poderiam fazer crescer  e acontecer, mais coisas inovadoras. Era tudo que uma apaixonada pelo seu trabalho mais deseja. E assim foi.
Ao longo do tempo, a jovem, já não conseguia avaliar se o projeto valia a pena ou não. Ela simplesmente aceitava, quando mais tivesse, melhor seria. Ok, mas, a Ana, gerente do financeiro, começou observar que os recursos que estavam entrando não eram o suficiente para pagar as despesas mínimas do escritório, entre essas: o aluguel. A Ana, gerente do Rh, começou a perceber também, uma necessidade urgente de contratar mais funcionários, nem que fosse apenas um assistente administrativo para dar desafogar atividades simples. Mas, não havia recursos para isso.
Foi aí que a profissional liberal começou a analisar que havia alguns erros em sua gestão individual. Faltava em sua sequência de acumulo de funções um gerente de marketing e de comunicação, principalmente. Ana precisava divulgar seus serviços de modo que seus possíveis clientes compreendessem que ela existia no mercado e precisavam conhecer o que ela poderia fazer por eles. A ação de comunicação e marketing deveria ser tão eficiente a ponto dos contratantes entenderem que a profissional poderia dar conta do recado independente de sua formação ter ocorrido há tão pouco tempo. Ela não poderia prometer a eles mais do que poderia cumprir. E isso deveria ser claro em suas divulgações. Para que os contratantes passassem a valorizar a profissional.
Ana, percebeu que sua paixão exagerada sempre existiu pela arquitetura, porém nas empresas pelas quais passou a paixão era controlada pelos seus superiores. Que a impediam de dar mais do que ela deveria e poderia. Compreendeu que precisava de limites ou seu negócio iria em breve à falência. E pior, com compromissos não cumpridos com os  clientes.

Olhando o exemplo da jovem arquiteta, refletimos como tantos e tantos profissionais que são apaixonados demais por suas áreas, não conseguem passar do primeiro ano de negócio próprio. Pois, se perdem em detalhes que precisariam de disciplina e controle. Pensando nisso elaboramos uma sequência de conselhos que julgamos importantes para quem deseja crescer. Viver do que ama e do que faz melhor, porém com respeito aos seus limites.

1 – Ao abrir o seu negócio busque trocar ideia com profissionais bem sucedidos ou não que começaram nas mesmas condições que você. Tire deles os exemplos práticos de ações. O que deu certo ? E o que deu errado? Para não repetir os mesmos erros e se inspirar no que deu certo.

2-  Busque participar de eventos promovidos por organizações que impulsionam o empreendedorismo, como o próprio Sebrae. Busque informações e conselhos de órgãos como este.

3 – Lembre-se: você é seu patrão e seu funcionário. O certo e o errado para as duas funções tem que ser observados. Não muita pressão e muita demanda e nem muita moleza nas ações. Controle. Busque trabalhar em horário comercial, sempre! Final de semana se dê uma folga. Não se acabe de trabalhar todos os finais de semana. Você precisa ter a mente tranquila. Afinal, você também é quem deve criar e ter ideias para sua “empresa”.

4- Invista em marketing e comunicação. Elabore um site de qualidade, busque divulgar seus trabalhos. Sempre focando nas metas e resultados alcançados. Sua ação de marketing e comunicação são os verdadeiros passaportes para contratos vantajosos para seu trabalho. Não deixe esta função de lado.

5 – Não pegue mais contratos do que pode atender. Mesmo que seja tentador. A não ser que tenha um parceiro tão qualificado quanto você.

Essas são apenas algumas dicas. Mas, a principal delas é você é o domador desta paixão. Não permita que ela lhe domine e faça com que se perca. Amar o que se faz é muito bonito, mas para amar de verdade é preciso saber quais são os limites da paixão. Afinal, toda paixão tem que ter seus limites senão, você já sabe. Ela não acaba bem.