QUANDO PARAR É PRECISO
Artigo: Eli Antonelli
Eu sou um ser em movimento. Por dia chego a atender e retornar por volta de 20 a 30 ligações. Não sei quantos e-mails passo por dia, afinal meu trabalho é contatos com imprensa, com clientes, com divulgações, com parcerias.

Normalmente trabalho em três turnos nos dias de pico. Dormir?.. Vira uma tarefa necessária, porém, sempre que ela pode ser adiada, isso ocorre. Neste momento, trabalho em eventos, e para quem vive dentro deste meio, sabe que evento não é simplesmente o encontro de pessoas num local, sob um determinado tema. Evento é viver uma correria louca, atrás de detalhes, de soluções, de destaques e de parcerias. E para isso, não existe 8 horas por dia e não existe o tal “horário comercial”.

Mas, diante deste universo incansável que é o dia a dia de um ser humano urbano do século XXI, e eu me incluo nesta classificação, fico me perguntando, qual é a hora de parar?

 Não parar de trabalhar. Afinal, o trabalho dignifica o homem, não é? E faz ele construir uma sociedade. Seja lá que forma possa ser essa contribuição, seja a minha, e de muitos colegas de profissão na área da comunicação, levando informação para lá e para cá, e buscando mais histórias e fatos, seja da menina que gentilmente me sorriu hoje na recepção quando cheguei no escritório, ou do rapaz que trouxe a correspondência com seu uniforme azul e amarelo das empresas de correio, seja do advogado, que me esperou para a reunião. 


Não importa. Cada um de nós, colabora para este sistema. Conjunto de ações intercaladas que nos faz estar sempre em movimento.

Mas, voltando ao meu universo de e-mails e trocas de contatos ao longo do dia,  agora a pouco, já iniciando o terceiro turno de trabalho às 18h30, eis que acaba a luz na minha residência.

Eu, imediatamente desliguei o computador e fui conferir o que havia ocorrido. Quando percebi que era em toda rua. Estranho, a energia não existia e todos os meus vizinhos pareciam meio que zumbis, parados em frente suas residências comentando  s obre o blackout.

Eu ali, diante de tantos afazeres para o terceiro turno, me perguntava: E agora?

Foi então que corri ao telefone. É ele ainda funcionava... que bom... Ainda restava um pouco de tecnologia, e liguei para a  empresa de energia, pedi para que providenciasse o conserto imediatamente, se possível. E então, já não restava mais nada a não ser esperar.

E eu parei. Sim.. depois de dias em perfeita adrenalina, da correria de preparo e divulgações de vários eventos simultâneos, eu parei.

Curiosa para saber o caminhar da RIO+20, ansiosa para conferir o retorno das emissoras de TV, radio e jornais, sob as dezenas de releases enviados, curiosa para conferir o facebook do meu ex-namorado.. Afinal, também , tinha um fragmento de vida privada... sim, eu observava seus passos por meio das postagens no facebook.

Nada podia fazer e me senti um pouco fraca. Afinal, o que eu era sem a tecnologia? Sem a energia que me ligava ao mundo? Meu celular que há alguns dias não estava dando bons sinais de vida, não  podia me salvar, afinal, ele estava com defeito. E eu não estava apta a me comunicar. Foi então que percebi que aos poucos eu começava a me sentir numa ilha isolada.

E o parar, foi tomando conta de mim. Afinal, qual o momento de realmente parar e olhar para si que encontramos dentro do sistema que nos conecta com o mundo 24 horas, 7 dias da semana?. Eu admiro e me surpreendo com pessoas  que conseguem desligar seus aparelhos celulares nos finais de semana, e se desligarem das tecnologias ligadas à internet nem que seja por algumas horas.

Eu comecei a lembrar de um dia que pensei em fazer a experiência. Eu trabalho com comunicação e muitas vezes o que é ligação com os amigos e com o trabalho se fundem e não consigo separar. Então, pensei em realizar um teste: 7 dias sem redes sociais. Quando postei no facebook que iria ficar fora por alguns dias, me diverti com os comentários.

Eli, o que houve? Você está doente?  Por que irá ficar fora?
Era como se, sem o facebook, eu não mais existisse, se eu não fizesse parte. Não só o facebook, mas minha intenção era me isolar de todas as redes e-mails, linkedin, msn, twitter, Orkut, todas.. e até os telefones.

Nossa!!! Que utopia! Claro que não consegui concretizar nada disso. Minha ansiedade para saber os acontecimentos de todos do meu circulo, e fazer as interações cotidianas com eles era tão intensa, que não consegui.

Afinal, como iria conversar com uma das minhas melhores amigas que está em Évora, Portugal, se não fosse pelo facebook? Como saberia das ações do meu ex-namorado se não fosse enviando as dezenas de e-mails para ele por dia? E no trabalho, não tem nem o que comentar, minha vida é divulgar ações e buscar informações relevantes. Não, era realmente possível.

Mas, afinal, como a minha vida seria se de repente eu perdesse a tecnologia? A Eli, jornalista, ligada às redes sociais, e amiga de várias pessoas que  não residem na mesma cidade... como viveria? Como ela poderia interagir com todas essas pessoas?

E que pessoa eu seria se o mundo fosse assim.. como ficou naquele momento sem luz, sem tecnologia . diante dos meus vizinhos.. que alguns, inclusive tinha interação pelo msn apenas.. “Nossa, como a Jaqueline está grande.. nas fotos do Orkut.. ela parece tão bebê”.. Sim, era minha vizinha, eu a vira nascer e não percebi o quanto ela estava crescendo.

A Julia contou da festa junina da Igreja.. enquanto esperávamos o rapaz da Copel. “Ah, a igreja, fazia tempo que não ia à igreja... afinal eu sempre lia as orações do site do sei-cho-noiê. Eram tão lindas as mensagens.. Mas, me recordava dos dias que fui lá e na igreja... “

Fiquei sabendo de um bazar beneficente que haveria no bairro, ajudaria as crianças da região. Interessante, renderia uma boa pauta, além, da possibilidade de encontrar peças exclusivas das marcas que seriam expostas, doadas pelas senhoras da região.

Eu senti um aroma interessante no porta da minha casa. Eram as flores insistentes que minha mãe havia plantado e já fazia um mês. Como elas cresceram!!! E por um minuto, pensei ter visto um "pagalém",o vaga-lume... Você lembra deste inseto? Rs.. Ele fez parte da minha infância. Eu corria pelo quintal com meus irmãos.. atrás dos bichos..
Ops, a luz voltou!!! Tenho que diagramar um apostila de 60 paginas, ainda hoje!!